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VOZ DO PROFESSOR

DESTAQUE | Pr. carlos renato de lima brito | clique aqui para Download

A Bíblia e a Cultura Contemporânea

Recentemente vi um filme bem interessante. Um filme antigo cujo título é “A Festa de Babette”. Este filme conta uma história ambientada na fria Juntlândia, uma região da Dinamarca, nos países escandinavos. As duas personagens principais do filme são as irmãs Filipa e Martina. Foram chamadas assim por causa dos dois grandes reformadores alemães Martinho Lutero e Filipe Melanchton. O pai delas fundou a própria Igreja. Era muito estimado entre os habitantes daquela cidade distante de toda a influência do mundo civilizado. Todos da cidade testemunhavam de como aquele santo homem conduziu todos a uma transformação de vida e não podiam imaginar sua existência sem a presença espiritual marcante do pastor.


As irmãs Filipa e Martina nunca se casaram, apesar de terem tido muitas oportunidades para isso. Eram na juventude muito bonitas e talentosas. Uma delas tinha uma voz angelical. Quando um famoso cantor da ópera de Paris visitou a rupestre cidade, certa vez, ofereceu-se para dar aulas ao prospecto talento. Descobriu o professor nas aulas que aquela moça poderia se tornar uma famosíssima Diva, ter grande sucesso, se se mudasse para Paris e pusesse em desenvolvimento seu visível potencial. O cantor também estava grandemente apaixonado. A moça, porém, e não por uma ordem do seu pai, desistiu das aulas quando soube de intenções de estrelado que seu professor tinha.
A outra irmã, por sua vez, teve oportunidade de se casar com um soldado que tinha todas as condições de se tornar um grande general. Ele estava caído de amores por ela. Esta irmã também rejeitou sua proposta de casamento, porque não tinha as mesmas ambições do seu pretendente.


Agora, as duas irmãs, já idosas e sem a presença de seu pai e pastor, viviam com seus escassos rendimentos, tirando desses, com muita dificuldade, alguma sobra para alimentarem e vestirem os pobres da cinzenta e congelada cidade.
As vidas daquelas pobres e luteranas senhoras são balançadas pela presença da misteriosa Babette. Babette é francesa, está fugindo de Paris porque, numa terrível repressão política, procuram tirar a vida de Babette. Ela vem se refugiar na casa daquelas senhoras e torna-se sua criada sem cobrar nada em troca a não ser abrigo e alimento. As senhoras nem podem alimentar mais uma boca, mas descobrem em Babette uma mulher muito esperta, que aprende o dinamarquês com muita presteza, que sabe fazer o dinheiro render e é uma excelente cozinheira.


Quando tudo parecia estar estabelecido, Babette recebe uma surpreendente correspondência. Ela ganhou 10.000 francos na loteria em que ela jogava todos os meses, sendo esta a sua única ligação coma França. Babette pode então fazer sua vida em outro lugar e não mais viver como uma criada de duas senhoras que aprenderam a viver com extrema simplicidade, com o essencial, com poucos prazeres, dedicadas inteiramente à caridade e à religião, apesar de terem tido, no passado, grandes oportunidades de desfrutarem legitimamente do mundo lá fora.


Para presentear as irmãs pietistas, Babette resolve patrocinar o jantar de comemoração do centésimo do falecido pastor. Ela pede às duas irmãs que o jantar não seja aquela sopa sem gosto, aquele pão dormido, acompanhado de um copo d’água, que os religiosos costumavam comer em suas reuniões. Ela pede que seja servido um autêntico jantar francês, como nos grandes restaurantes de Paris. Apesar da relutância das duas irmãs, elas permitem que Babette realize seu jantar, o que é realizado com grande primor e maestria. Babette era uma grande cozinheira.


O grupo religioso toma, entretanto, uma decisão muito radical: como era uma festa em lembrança ao que o grande pastor havia feito pela cidade, eles decidem jamais fazer qualquer elogio à comida, decidem não se resignarem a sentir prazer no sabor de qualquer petisco, e decidem falar durante o jantar apenas do pastor e a dirigir todas as suas conversas a uma abordagem religiosa. É interessante ver todos aqueles homens e mulheres comerem as comidas mais raras, mais caras, preparadas por uma das maiores cozinheiras do seu tempo, sem fazerem qualquer elogio a esta comida, tentando inibir sua expressão de contentamento com os finos manjares que eles colocavam a boca, apenas soltando interjeições hipócritas àquilo que o pastor havia feito, destacando sua experiência religiosa, vazia de significado e contexto que acontecera há muitos anos atrás.


Esta história nos mostra muito bem como a fé, a religião e as Escrituras podem se relacionar com a cultura em geral. O pastor permite que sua filha estude canto com um cantor profissional, mas a filha acredita que se tornar uma cantora profissional seria desviar-se da fé. As pessoas daquela cidade gostam das comidas que Babette prepara para eles comerem, mas acreditam que elogiar aquela comida é desvirtuar sua fé e cometer uma injúria ao homem que os guiou ao evangelho. As pessoas daquela cidade tomaram uma posição em relação ao mundo que os cercava. Elas decidiram se isolar ao máximo. Decidiram que se envolver diretamente com as artes, com a guerra, com a culinária e com a cultura em geral era um erro a ser evitado.


O relacionamento entre a o cristão e a Cultura Contemporânea é um relacionamento difícil de definir e, por isso, se torna polêmico. Até que ponto um cristão pode se envolver com a cultura em geral? Um cristão contemporâneo pode, por exemplo, fazer um curso universitário? Mais especificamente, um cristão pode fazer um curso de música numa faculdade, onde aprenderá as músicas de Villa-Lobos, Ernesto Nazaré e Luis Gonzaga? Um cristão pode ler um livro de Érico Veríssimo, Machado de Assis ou até Paulo Coelho? Um cristão pode fazer um curso de Psicologia? Um cristão pode ver uma peça de Teatro ou assistir a um concerto de música clássica?
Estas são algumas das perguntas feitas na área do relacionamento entre o cristão e a cultura que têm grande necessidade de serem respondidas de modo bíblico, crítico, sensato e objetivo. Para falar deste assunto, vamos procurar responder as seguintes questões:

    • O que é cultura?
    • Que posicionamentos têm se levantado a respeito do relacionamento entre o cristão e a cultura?
    • O que as Escrituras dizem sobre o assunto?
    • Que conclusões nós podemos das informações bíblicas?
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