Porque Sou Batista Regular
Por Andrew Comings
Introdução
A piada é velha. "Ah, você é Batista
Regular? Então não é bom, nem ruim, é apenas
regular.”
A felicidade ou infelicidade da escolha deste nome para o nosso
movimento aqui no Brasil é debate para outra hora. Acho,
porém, que precisamos urgentemente de homens que se levantem
para defender os princípios bíblicos que vêm
junto com o título "Batista Regular".
Enquanto existem teólogos e historiadores de muito mais
peso em nosso movimento, pela minha criação creio
que tenho uma perspectiva singular sobre o assunto. Nasci
e fui criado no interior do estado de Nova Iorque, berço
do movimento batista regular. Meu pai é pastor batista
regular e participante por quase quarenta anos na Empire
State Fellowship, uma das associações estaduais
mais fortes no movimento naquele país. Cresci no
meio desta associação, sempre em contato com grandes
pastores, verdadeiros guerreiros na luta contra liberalismo.
Quando eu era adolescente, meu pai aceitou o desafio de escrever
a história da Empire State Fellowship. Durante
os meses em que ele escrevia o que hoje é um livro com
o título "Remaining True" (Permanecendo Fiel)
a mesa da nossa sala de jantar estava coberta de documentos,
cartas, atas e outros manuscritos dos fundadores do nosso movimento. Eu
lia tudo com grande interesse.
No dia 17 de julho de 1994 (o dia em que Brasil virou tetra-campeão
na copa) cheguei no Ceará. Passei dois anos estudando
no Seminário Batista do Cariri. Fiz a matéria "História
dos Batistas" aos pés do adminrável Pr. Jaime
Augusto. Tambem tive contato com os missionários
fundadores do movimento--tais como Pr. Tomé Willson, Pr.
Haroldo Reiner e Pr. Pedro Brooks.
Um dos eventos mais marcantes para mim deste período foi
o jubileu do SBC. Pude observar naquela occasião
a continuidade e os frutos do movimento que começou no
interior de Nova Iorque na década de 30.
Atualmente tenho o grande privilégio de servir no corpo
docente do SBC. Levo muito a sério a minha responsabilidade
de treinar os futuros pastores e líderes Batistas Regulares
do Brasil.
Qualquer movimento morre ao perder seus princípios básicos. Não
quero que isto aconteça com o movimento Batista Regular. Porém
observo que muitos que se chamam de Batistas Regulares não
tem noção destes princípios. Por isso,
quero apresentar três razões porque eu, um duplo
herdeiro deste grande movimento, continuo sendo Batista Regular.
1. Porque a Doutrina é Chave
Quem defende a sã doutrina participa de uma herança
rica. Paulo, Agostinho, Lutero, Calvino, Knox, Spurgeon,todos
possuiram o mesmo zelo pela pureza doutrinária. E
os fundadores do movimento batista regular, tanto nos EUA quanto
no Brasil, eram feitos do mesmo material.
É importante lembrar que o movimento batista regular faz
parte de um movimento maior chamado "fundamentalismo", e nos
princípios houve muita comunicação e comunhão
entre homens fundamentalistas de denominações diferentes
diante de um inimigo comum: o liberalismo teológico. Mesmo
que tivessem grandes diferenças de opinião em alguns
pontos de teologia e prática, estavam de acordo nas pedras
fundamentais da nossa fé, tais como a inspiração
das sagradas escrituras e a divindade de Cristo. Em 1909
um grupo destes homens (entre eles anglicanos, luteranos,
presbiterianos, e até batistas) publicaram uma série
de artigos, colecionados em doze volumes, com o nome "Os Fundamentos:
Um Testemunho à Verdade". (1) Do
título desta obra surgiu o nome "fundamentalismo". Portanto, é importante
notar que desde seu início o fundamentalismo tem a ver
com doutrinas e não preferências.
Com esse pano de fundo histórico nasceu o movimento batista
regular em 1932. O motivo de sua separação
da Convenção Batista Americana era doutrinário. O
liberalismo teológico tinha entrado naquela organização
e homens de fé não tiveram escolha a não
ser sair do meio dela. Todos os batistas daquela época
mantiveram a mesma prática batista, só os "regulares" defenderam
a doutrina correta.
Um dos desafios que nosso movimento enfrenta hoje tem a ver justamente
com esta questão de doutrina e prática. Num
propósito de nos diferenciar de outros grupos evangélicos,
acabamos enfatizando o ensino das práticas e tradições
das nossas igrejas em vez dos fundamentos doutrinários
da nossa fé. O resultado triste é que muitos
jovens com quem converso dizem com facilidade quais os instrumentos
que não se pode usar no culto de uma igreja batista regular,
mas não conseguem definir a palavra "graça", muito
menos defender a inspiração verbal e plenária
das Sagradas Escrituras.
Notem bem: os ataques contra a igreja sempre foram e continuam
sendo doutrinários. Liberalismo, alto criticismo,
neo-ortodoxia, modernismo, pós-modernidade, a renovação
carismática, a igreja emergente, todos têm uma coisa
com comum: aberração doutrinária.
Sou Batista Regular porque nossa ênfase histórica
na sã doutrina tem capacitada as nossas igrejas e seus
membros a se manterem firmes através das tempestades teológicas
que assolaram as últimas décadas.
Quero voltar a falar rapidamente daquele jovem que conhece bem
as práticas, mas não as doutrinas. Quando
ele for para a universidade, diante daquele professor determinado
a destruir a sua fé, o fato de não haver bateria
no culto da igreja dele não vai valer absolutamente nada. Vamos
continuar a ensinar a base bíblica das nossas práticas?
Sim! Mas vamos voltar à tradição mais nobre
dos Batistas Regulares: a de defender os alicerces da nossa fé.
2. Porque Sou Mais Robert T. Ketcham e
Menos J. Frank Norris
Não
se pode estudar a história dos batistas regulares sem
encontrar várias vezes o nome Robert T. Ketcham. Um
dos fundadores de peso do movimento nos EUA, ele dedicou sua
vida e sacrificou muito pela causa da sã doutrina. Homem
humilde, porém grande conhecedor e expositor das Sagradas
Escrituras, sua influência extendeu até ao Brasil. Lembro-me
muito bem de ouvir o Pr. Tomé Willson contar sobre conversas
teológicas que ele teve com este grande homem.
No mesmo período existia um homem chamado J. Frank Norris. Pastor
de duas "mega-igrejas", ele se considerava o lider do movimento
fundamentalista e viu no Ketcham um grande rival. Durante
anos ele manteve uma campanha de difamação contra
o Ketcham através de publicações, cartas,
e até telegramas pessoais que Ketcham recebia minutos
antes de pregar(2) . O
alvo de Norris e seus aliados era simples: controle do movimento
batista regular. Ele esteve irado como
o fato de que Ketcham se opôs a sua entrada à associação
dos batistas regulares dos EUA. Mas Ketcham entendia muito
bem que o nosso movimento é um movimento de igrejas e
não de homens.
A história do fundamentalismo está repleto de exemplos
de homens do tipo Norris. As controvérsias variam,
mas o alvo é sempre o mesmo: controle. Um dos métodos
preferidos de homens deste tipo tem sido pegar uma determinada
prática ou preferência (música, versões,
etc.) e re-definir o fundamentalismo nestes termos. Logo
estas práticas preferenciais viram motivo da separação.
Usou determinado instrumento no culto? É separação. Pregou
com outra versão da Bíblia? É separação. Foi
para uma apresentação de algum grupo evangélico? Haja
separação!
O resultado é que muito tempo, energia e recursos são
gastos tentando provar que se é mais conservador do que
o próximo. E não adianta. Por mais "conservador" que
alguem fique, os "fariseus" (para usar um termo bíblico)
continuam a inventar novas regras e proibições. Assim
eles mantêm controle.
De forma geral o movimento batista regular, tanto no Brasil quanto
nos EUA, não tem caido nos laços de indivíduos
deste tipo. Muitos homens do estilo Norris têm saido
frustrados do nosso grupo. Geralmente escrevem livros ou
apostilas condenando o "liberalismo" do movimento, e formam suas
próprias associações. Estas associações
acabam morrendo, porque têm como princípio maior
a separação, em vez da sã doutrina.
Que o nosso movimento esteja sempre atento e evite ser controlado
pelos J. Frank Norris da nossa época.
3. Porque Creio que A Igreja é o
Exército dos Santos e Não o Esconderijo dos Crentes
Sempre fui fascinado pela declaração do nosso Senhor
Jesus Cristo ao seu discípulo Pedro, quanto a sua igreja: "...sobre
esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do hades não
prevalecerão contra ela."(Mat. 16:18) Esta frase
visa a igreja como um organismo agressivo, ao ataque, procurando
romper as próprias portas do inferno. Creio que
outras passagens (Efésios 6:10-20, Mateus 28:16-20 entre
outras) confirmam esta visão agressiva da Igreja.
Cristo nos deixou no mundo, não porque esqueceu de nós,
mas porque quer que o mundo seja influenciado por nós. Muitas
vezes esquecemos deste fato, e em vez de um exército triunfante,
a igreja vira um abrigo onde os crentes se escondem e esperam
ansiosamente o arrebatamento. Raramente vemos a ousadia
de um Lutero, a determinação de um Wilberforce,
ou a coragem de um Jim Eliot. Em vez de entrar no mundo
a fim de proclamar a Cristo, procuramos viver em “guetos
evangélicos”.
O movimento batista regular tem suas raízes no movimento
missionário. A missão que sirvo atualmente
foi fundada por fundamentalistas com um espírito missionário
inabalável. Viram que as outras missões batistas
perderam seu espírito pioneiro, ou pior, estavam "jogando
para o outro time". Os primeiros missionários ao
Brasil sofreram perseguição, privações
e perigos. Foram agressivos e persistentes. Sacrificaram
tudo, até sua saude e suas famílias, pelo evangelho.
Sou Batista Regular porque o movimento batista regular é um
movimento missionário. Hoje
em dia as trevas ao nosso redor estão aumentando. Está na
hora da nossa luz brilhar cada vez mais. Para fazer isto,
temos que enfrentar o mundo, não nos esconder dele.
Sinto que estamos muito em falta com os nossos antepassados. Corremos
o risco de perder aquele espírito pioneiro que caracterizava
os nossos pais. As universidades, a mídia (incluindo
as artes) e pessoas carentes (deficientes físicos, crianças
de rua, etc.) são três áreas onde vejo muita
necessidade e pouco investimento. Gastamos tempo, energia, e
recursos debatendo assuntos secundários, enquanto perdemos
o verdadeiro sentido de que é ser Batista Regular—isto é,
ser missionário audaz e corajoso.
Conclusão
No dia 6 de outubro de 1942 um grupo de pastores e leigos batistas
se reuniram em Ithaca, NY (cidade onde eu nasci 30 anos depois,
no mesmo mês). Dez anos antes desta reunião, a Associação
Geral de Batistas Regulares (GARBC) tinha sido fundada. O
propósito destes homens era formar uma associação
estadual dos Batistas Regulares de Nova Iorque. Assinaram
uma resolução que diz, em parte:
“…que [esta associação]
irá lutar, sem vacilar, pelos grandes Fundamentos do cristianismo
histórico. Que esta associação irá proteger
e promover a independência das igrejas locais, e a separação
entre igreja e estado. E que sempre irá procurar
espalhar o Evangelho aos confins da terra, ao mesmo tempo edificando
os crentes na mais sagrada fé, e assim honrar nosso Senhor
Jesus Cristo como o cabeça da Igreja e Senhor da ceifa."(3)
Assim que aqueles homens entenderem significar o nome “Batista
Regular”.
Tabernacle Baptist Church, em Ithaca,
NY, onde foi fundada a Empire State Fellowship
Para contrariar aquela
piada velha citada na introdução deste artigo, sou Batista Regular,
e isso é muito bom. E continuarei sendo Batista
Regular enquanto isso significa paixão pela sã doutrina,
preeminência de igrejas locais em vez de homens individuais,
e um espírito missionário audaz.
(2)
Para ler mais detalhes sobre o conflito entre Ketcham e Norris,
veja o livro Portrait of Obedience (Retrato de Obediência)
por J. Murray Murdoch, pp 177 a 207.
(3)
Harold H. Comings, Remaining True p. 32—tradução
do autor.