Uma passagem que é de
grande auxílio para entender este assunto é o
capítulo cinco da epístola aos Gálatas. Em
vv.1-12 Paulo faz uma chamada para a liberdade (da lei),
entao em vv.13-26 ele explica essa liberdade. No
início de cada seçao ele declara que somos
libertos e em seguida, faz uma aplicaçao. Em
v.1, ele diz que nao devemos nos deixar ser escravizados
novamente. O contexto claramente indica que o escravo é quem
se submete a circuncisao e a lei (vv.2-4). Em v.13,
a aplicaçao é uma advertencia contra o abuso
da liberdade, dando oportunidade a carne; em vez disso
devemos servir uns aos outros em amor. No próximo
versículo Paulo afirma que toda a lei se resume
no mandamento “Amarás ao teu próximo
como a ti mesmo” (Lv 19.18). É subentendido
que devemos obedecer este mandamento, ou seja, devemos
nos submeter a ele e, por extensao, a toda a lei.(1*) Em
seguida ele contrasta a carne e o Espírito, concluindo
(v.18) que, se somos guiados pelo Espírito, nao
estamos sob a lei.
Paulo está se contradizendo, oscilando entre liberdade
da lei e submissao a ela? Nao. Ele está tratando
de dois perigos contrários, um em cada seçao. Mas
este contraste é visto de dois pontos de vista,
e pelo fato de ele tratar de tudo isso na mesma passagem, é possível
confundir os assuntos e errar na aplicaçao do
seu ensino.
O primeiro ponto de vista é a obra de Jesus Cristo. Precisamos
reconhecer o que Ele fez, para escaparmos de dois perigos,
a escravidao e a libertinagem. Em Gl 5.1-12, Paulo
mostra o erro de ignorar a nova era no plano de Deus que
foi inaugurada por Jesus Cristo. A pessoa que cai
neste erro insiste em submeter-se “a jugo de escravidao”,
tentando cumprir a lei, e fecha os olhos para a provisao
de justiça em Cristo. Hebreus observa que,
se nao houvesse problema com a primeira aliança,
Deus nao teria prometido outra – Hb 8.7. A
lei refletia a vontade de Deus, mas fez isso dentro de
um regime temporário, que conduzia a Jesus Cristo,
pelo qual veio a revelaçao definitiva (Hb 1.1-4). Em
Gl 5.13-26 nós encontramos outro erro e outro perigo. Ao
contrário dos que se apegam a revelaçao incompleta
na lei de Moisés, estes querem se livrar das suas
restriçoes. Eles ignoram o fato que o “Filho
do Homem nao veio para ser servido, mas para servir” (Mc
10.45). Cristo é visto apenas como uma oportunidade
para abandonar a lei e fazer o que bem quer, satisfazendo
os próprios desejos egoístas. Paulo
diz que isso nao passa de ilusao. Ou nós satisfazemos
a concupiscencia da carne, ou somos guiados pelo Espírito, “para
que nao façais o que, porventura, seja do vosso
querer” (Gl 5.17). A libertinagem leva a contendas
e destruiçao (v.15).
O segundo ponto de vista é a vida de fé. Vivendo
pela fé, nao iremos cair no perigo do legalismo
(tratado em vv.1-12) nem do antinomismo (o assunto de vv.13-26). Ambos
deturpam a revelaçao divina que chamamos a lei. O
legalismo tenta se justificar na lei (v.4), praticando
uma obediencia a parte da fé, o que é impossível. Para
poder ‘obedecer’, o legalista redefine a
lei, tornando-a em algo superficial que os homens podem
discernir (cf. Mc 7.6-13). O antinomismo abandona
a fé para viver pelas próprias inclinaçoes
e por isso recusa as orientaçoes que Deus nos deu
na lei. O mandamento essencial é de amar ao
próximo; os outros especificam este amor. Quem
anda no Espírito nao vai desobedecer a lei (Gl 5.23b). Tanto
o legalismo como o antinomismo dizem estar obedecendo a
Deus, mas nenhum escuta a Sua voz. Todos os dois
andam “nos seus próprios conselhos e na dureza
do seu coraçao maligno” (Jr 7.24).
Infelizmente, é possível confundir o contraste
entre legalismo e fé com a relaçao entre
o Antigo Testamento e o Novo. Quem faz isso afirma
que em Gálatas e outras passagens Paulo está condenando
a lei do Antigo Testamento e promovendo a fé do
Novo, como se no Antigo nao tivesse fé e nao tivesse
mandamento no Novo. Felizmente, esta confusao nao é levada
a sua conclusao lógica, a nao ser pelos hereges. Porém,
entre os crentes ortodoxos, tem criado dificuldades para
entender corretamente as Escrituras, especialmente o Antigo
Testamento. Além disso, produz uma certa apatia
no estudo do Antigo Testamento, o que dificulta o entendimento
completo das Escrituras. Ao contrário disso,
Paulo ensina que devemos ser guiados pelo Espírito
(Gl 5.16-26). Isso significa que nao estamos sob
a lei (v.18) e ao mesmo tempo estamos cumprindo toda a
lei (v.14). Como assim? Nós
nao estamos sob o regime da lei de Moisés, porém
estamos realizando o propósito pelo qual ela foi
dada. Podemos e devemos estudar a lei de
Moisés e as outras revelaçoes do Antigo Testamento,
procurando entender os propósitos eternos atrás
delas, os quais sao indicados no próprio Antigo
Testamento e na interpretaçao dele pelos autores
do Novo.
Ao ler a lei de Moisés, procure primeiro descobrir
o sentido do mandamento dentro do contexto de Israel. Pergunte:
Por que Deus insiste nesta prática ou proíbe
aquela? Quais motivos Ele fornece no contexto imediato
do mandamento? Sao razoes que precederam e tornaram
necessária a prática ou proibiçao? Há implicaçoes
mencionadas? Fala-se de resultados, tanto imediatos
como posteriores? Quais os setores da vida que sao
afetados pelo mandamento? O que este mandamento contribui
para o caráter global do povo de Deus?
Em seguida, procure descobrir como esse mandamento se aplica
a nós, que estamos na era da igreja e vivendo num
contexto bastante diferente (numa cultura ocidental, 3.400
anos depois). Pergunte: Quais as conexoes entre este
estatuto e a nossa realidade? Como podemos nos orientar
pela instruçao dada aqui? Existe contexto
semelhante em nossa vida? Existe um princípio
atrás da ordem específica? (As perguntas
explorando o sentido do mandamento para Israel ajudarao
a descobrí-lo.) Há alguma referencia
no Novo Testamento a este mandamento, interpretando-o ou
aplicando-o de algum modo? Se nao há nenhuma
referencia ao mandamento em si, existe alguma citaçao
ou alusao a passagem em que ele se encontra? Qual
o contexto? Quais os problemas sendo tratados, ou
a situaçao em vista?
Nao estamos sob a lei, e sim, a graça; mas isso
nao significa que abandonamos a lei de Deus. Muito
ao contrário, “o que fora impossível
a lei…, isso fez Deus…, a fim de que o preceito
da lei se cumprisse em nós” (Rm 8.3, 4). O
propósito pelo qual o Senhor deu a lei ao povo de
Israel finalmente tem condiçoes de se cumprir na
vida dos que andam segundo o Espírito. Por
isso, devemos estudar a lei. O ensino do Novo Testamento
depende do ensino do Antigo e nos fornece a hermeneutica
divina para entender e aplicá-lo.
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(1*) Em
Rm 13.8-10 Paulo argumenta de modo semelhante. Nós
nao devemos ter nenhuma dívida, menos a do amor. O
que ama cumpriu a lei. Ele entao cita quatro dos
Dez Mandamentos (7o, 6o, 8o e 10o), dizendo que todos,
e quaisquer outros que tiver, se resumem no mandamento “Amarás
ao teu próximo como a ti mesmo”. O
amor nao pratica o mal contra o próximo (i.e.,
as coisas ruins proibidas nos mandamentos); portanto, é o
cumprimento da lei. No parágrafo seguinte,
vv.11-14, Paulo relaciona isso ao contexto cristao, especificamente
a nosso entendimento da escatologia e de modo menos direto
ao princípio de vestir-se do Senhor Jesus Cristo. Paulo
está se dirigindo tanto a judeus como a gentios,
na seçao anterior (cps.9-11), na seguinte (cps.14-15),
e também nos dois capítulos no meio. |