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VOZ DO PROFESSOR

DESTAQUE | Pr. mark f. willson |

Lei e Graça em Gálatas 5

por Mark Franklin Willson

Como devemos intepretar as leis dadas a Israel no Antigo Testamento, nós que somos da igreja na era do Novo Testamento?  Esta pergunta se refere a questao de LEI e GRAÇA.  Nao estamos debaixo da lei, e sim da graça (Rm 6.14).  Ao mesmo tempo sabemos que estas leis eram expressao da vontade de Deus e nós devemos pedir a Ele que seja realizada (Mt 6.10b), devemos conhece-la (Rm 12.1-2; Ef 5.17; Cl 1.9-12), e realizá-la em nossa conduta (1Ts 4.3; 5.18).

Uma passagem que é de grande auxílio para entender este assunto é o capítulo cinco da epístola aos Gálatas.  Em vv.1-12 Paulo faz uma chamada para a liberdade (da lei), entao em vv.13-26 ele explica essa liberdade.  No início de cada seçao ele declara que somos libertos e em seguida, faz uma aplicaçao.  Em v.1, ele diz que nao devemos nos deixar ser escravizados novamente.  O contexto claramente indica que o escravo é quem se submete a circuncisao e a lei (vv.2-4).  Em v.13, a aplicaçao é uma advertencia contra o abuso da liberdade, dando oportunidade a carne; em vez disso devemos servir uns aos outros em amor.  No próximo versículo Paulo afirma que toda a lei se resume no mandamento “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19.18).  É subentendido que devemos obedecer este mandamento, ou seja, devemos nos submeter a ele e, por extensao, a toda a lei.(1*)   Em seguida ele contrasta a carne e o Espírito, concluindo (v.18) que, se somos guiados pelo Espírito, nao estamos sob a lei.


Paulo está se contradizendo, oscilando entre liberdade da lei e submissao a ela?  Nao.  Ele está tratando de dois perigos contrários, um em cada seçao.  Mas este contraste é visto de dois pontos de vista, e pelo fato de ele tratar de tudo isso na mesma passagem, é possível confundir os assuntos e errar na aplicaçao do seu ensino.


O primeiro ponto de vista é a obra de Jesus Cristo.  Precisamos reconhecer o que Ele fez, para escaparmos de dois perigos, a escravidao e a libertinagem.  Em Gl 5.1-12, Paulo mostra o erro de ignorar a nova era no plano de Deus que foi inaugurada por Jesus Cristo.  A pessoa que cai neste erro insiste em submeter-se “a jugo de escravidao”, tentando cumprir a lei, e fecha os olhos para a provisao de justiça em Cristo.  Hebreus observa que, se nao houvesse problema com a primeira aliança, Deus nao teria prometido outra – Hb 8.7.  A lei refletia a vontade de Deus, mas fez isso dentro de um regime temporário, que conduzia a Jesus Cristo, pelo qual veio a revelaçao definitiva (Hb 1.1-4).  Em Gl 5.13-26 nós encontramos outro erro e outro perigo.  Ao contrário dos que se apegam a revelaçao incompleta na lei de Moisés, estes querem se livrar das suas restriçoes.  Eles ignoram o fato que o “Filho do Homem nao veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10.45).  Cristo é visto apenas como uma oportunidade para abandonar a lei e fazer o que bem quer, satisfazendo os próprios desejos egoístas.  Paulo diz que isso nao passa de ilusao.  Ou nós satisfazemos a concupiscencia da carne, ou somos guiados pelo Espírito, “para que nao façais o que, porventura, seja do vosso querer” (Gl 5.17).  A libertinagem leva a contendas e destruiçao (v.15).


O segundo ponto de vista é a vida de fé.  Vivendo pela fé, nao iremos cair no perigo do legalismo (tratado em vv.1-12) nem do antinomismo (o assunto de vv.13-26).  Ambos deturpam a revelaçao divina que chamamos a lei.  O legalismo tenta se justificar na lei (v.4), praticando uma obediencia a parte da fé, o que é impossível.  Para poder ‘obedecer’, o legalista redefine a lei, tornando-a em algo superficial que os homens podem discernir (cf. Mc 7.6-13).  O antinomismo abandona a fé para viver pelas próprias inclinaçoes e por isso recusa as orientaçoes que Deus nos deu na lei.  O mandamento essencial é de amar ao próximo; os outros especificam este amor.  Quem anda no Espírito nao vai desobedecer a lei (Gl 5.23b).  Tanto o legalismo como o antinomismo dizem estar obedecendo a Deus, mas nenhum escuta a Sua voz.  Todos os dois andam “nos seus próprios conselhos e na dureza do seu coraçao maligno” (Jr 7.24).


Infelizmente, é possível confundir o contraste entre legalismo e fé com a relaçao entre o Antigo Testamento e o Novo.  Quem faz isso afirma que em Gálatas e outras passagens Paulo está condenando a lei do Antigo Testamento e promovendo a fé do Novo, como se no Antigo nao tivesse fé e nao tivesse mandamento no Novo.  Felizmente, esta confusao nao é levada a sua conclusao lógica, a nao ser pelos hereges.  Porém, entre os crentes ortodoxos, tem criado dificuldades para entender corretamente as Escrituras, especialmente o Antigo Testamento.  Além disso, produz uma certa apatia no estudo do Antigo Testamento, o que dificulta o entendimento completo das Escrituras.  Ao contrário disso, Paulo ensina que devemos ser guiados pelo Espírito (Gl 5.16-26).  Isso significa que nao estamos sob a lei (v.18) e ao mesmo tempo estamos cumprindo toda a lei (v.14).  Como assim?  Nós nao estamos sob o regime da lei de Moisés, porém estamos realizando o propósito pelo qual ela foi dada.  Podemos e devemos estudar a lei de Moisés e as outras revelaçoes do Antigo Testamento, procurando entender os propósitos eternos atrás delas, os quais sao indicados no próprio Antigo Testamento e na interpretaçao dele pelos autores do Novo.


Ao ler a lei de Moisés, procure primeiro descobrir o sentido do mandamento dentro do contexto de Israel.  Pergunte: Por que Deus insiste nesta prática ou proíbe aquela?  Quais motivos Ele fornece no contexto imediato do mandamento?  Sao razoes que precederam e tornaram necessária a prática ou proibiçao?  Há implicaçoes mencionadas?  Fala-se de resultados, tanto imediatos como posteriores?  Quais os setores da vida que sao afetados pelo mandamento?  O que este mandamento contribui para o caráter global do povo de Deus?
Em seguida, procure descobrir como esse mandamento se aplica a nós, que estamos na era da igreja e vivendo num contexto bastante diferente (numa cultura ocidental, 3.400 anos depois).  Pergunte: Quais as conexoes entre este estatuto e a nossa realidade?  Como podemos nos orientar pela instruçao dada aqui?  Existe contexto semelhante em nossa vida?  Existe um princípio atrás da ordem específica?  (As perguntas explorando o sentido do mandamento para Israel ajudarao a descobrí-lo.)  Há alguma referencia no Novo Testamento a este mandamento, interpretando-o ou aplicando-o de algum modo?  Se nao há nenhuma referencia ao mandamento em si, existe alguma citaçao ou alusao a passagem em que ele se encontra?  Qual o contexto?  Quais os problemas sendo tratados, ou a situaçao em vista?
Nao estamos sob a lei, e sim, a graça; mas isso nao significa que abandonamos a lei de Deus.  Muito ao contrário, “o que fora impossível a lei…, isso fez Deus…, a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós” (Rm 8.3, 4).  O propósito pelo qual o Senhor deu a lei ao povo de Israel finalmente tem condiçoes de se cumprir na vida dos que andam segundo o Espírito.  Por isso, devemos estudar a lei.  O ensino do Novo Testamento depende do ensino do Antigo e nos fornece a hermeneutica divina para entender e aplicá-lo.

(1*) Em Rm 13.8-10 Paulo argumenta de modo semelhante.  Nós nao devemos ter nenhuma dívida, menos a do amor.  O que ama cumpriu a lei.  Ele entao cita quatro dos Dez Mandamentos (7o, 6o, 8o e 10o), dizendo que todos, e quaisquer outros que tiver, se resumem no mandamento “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.  O amor nao pratica o mal contra o próximo (i.e., as coisas ruins proibidas nos mandamentos); portanto, é o cumprimento da lei.  No parágrafo seguinte, vv.11-14, Paulo relaciona isso ao contexto cristao, especificamente a nosso entendimento da escatologia e de modo menos direto ao princípio de vestir-se do Senhor Jesus Cristo.  Paulo está se dirigindo tanto a judeus como a gentios, na seçao anterior (cps.9-11), na seguinte (cps.14-15), e também nos dois capítulos no meio.

 

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